Boa noite, tristeza.

Sair do ônibus, ir até o empório de alta qualidade num bairro de classe A-B, andar alguns leves e curtos passos, cumprimentar o porteiro, olhar para o céu e para os prédios altos em volta pensando que deitar naquele chão gelado seria o certo a se fazer, entrar no elevador e apertar o número quatro, olha para o espelho e reparar nas profundas olheiras, passar uns bons minutos procurando a chave e, enfim, conseguir abrir a porta do apartamento.

Eram as sextas feiras que ela gostava de ter. Apesar de sozinha, não se sentia solitária naquele vasto prédio de 16 andares, com as paredes da sala de estar que formavam um arco e faziam o prédio todo mais parecer um grande canudo vidrado. Bastava apenas esquentar o prato congelado por 5 minutos, abrir uma pequena garrafa de vinho e ajustar a agulha da vitrola no seu album preferido de jazz.

Aquele era o mundo perfeito.

Não havia questionamento algum sobre a existência humana, o universo, apenas lembranças de amores perfeitos em seus momentos. Das sensações de prazer e satisfação de alguém que, apesar de não ser amado, era agradável naquela época. Obviamente, tinha consciência do que era um amor. Sonhava com isso inegavelmente todos os dias.

O grande pesar era que ela já havia aceitado a opção de que seu grande amor não bateria à porta às 22 horas de uma sexta-feira. Já era sabido por toda humanidade que todos os bons moços estavam fazendo alguma coisa mais agradável com os amigos, com a família. Mas, absolutamente, não com ela.

Veja só você, uma moça, no auge da juventude, não tinha o menor interesse em interagir com pessoas da sua idade. Até se sentia afim de trocar uma ideia com o pessoal do trabalho. Contudo o amor, apesar de bem quisto, não era lá mais uma das suas grandes pretensões. Ela queria mesmo publicar seu livro, viver na boemia e gastar seus últimos dias com alguns gatos e um bom cão de guarda – de preferência -, no interior da França.

Sim, meu amigo, esta era uma sonhadora.

E, foi numa dessas sextas-feiras, que ao ouvir os miados de um gatinho vindo pela janela, seu coração bateu apertado (um pouco mais) e ela não resistiu. Desceu rapidamente os degraus do edifício, ignorou a chamada no celular que acabara de tocar, e foi em busca do bichano.

Felizmente, captou-o com amor e acariciou-o.

– Felício.

Ela houvera conferido para ter certeza ser um macho. O único que aceitaria seu carinho num dia de tributo aos amantes. Ela apostava que jamais seria feliz com um ser humano. Era muito amargo ali dentro. Não teria como explicar.

Subiu novamente o elevador e teve certeza que proporcionaria ao novo amigo um lar confortável. Pôs um amontoado de cobertores antigos com cheiro de armário velho num cantinho da área de serviço, e passou pelo menos quinze minutos maquinando uma maneira de providenciar uma caixa de areia.

O celular voltara a tocar.

Ela ignorava. Não devia ser nada especial.

O gato miava de fome.

De súbto tomou de volta consciência e despejou num pote de sobremesa alguns goles de leite fresco. Observar o prazer de outro ser era confortante. Era ter certeza que não havia solidão neste mundo.

O celular tocava pela terceira vez, mas ela apenas desligou o aparelho sem dar muita bola para quem a chamava do outro lado da lina. Ficou ali, absolutamente feliz com uma nova amizade. Com certeza um amor que poderia durar uma vida inteira.

 

Anúncios

2 responses to “Boa noite, tristeza.”

Trackbacks / Pingbacks

  1. Cabo no rabo e pá de terra por cima | SCOMBROS - 18/05/2013

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: